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A GAUDETE ET EXSULTATE E O VATICANO II

 

 

O Concílio Vaticano II (1962-1965) teve, entre outras coisas, o mérito de recordar que “todos na Igreja […] são chamados à santidade” (Lumen Gentium, n. 39), e não somente o clero e os religiosos. Segundo o padre Paulo Ricardo,

 

uma das grandes discussões que antecederam a publicação definitiva da Lumen Gentium, em 1964, era aquela relativa à vida religiosa. Estava claro para toda a Igreja que as pessoas que se consagravam a Deus pelos votos de pobreza, castidade e obediência, estavam em “estado de perfeição” […] O que inquietava os padres conciliares era como falar da santidade em relação ao restante do povo de Deus. Embora o chamado à perfeição tenha sido lançado a todos, desde o início da pregação evangélica (cf. Mt 5,48), tal lição se tinha obscurecido em certa medida e a visão geral das pessoas era a de que a santidade era para uma elite.[1]

 

 

Nesse sentido, o Concílio deu um passo importante, ao enfatizar que a santidade pode ser alcançada “nos vários gêneros de vida e nas diferentes profissões” (LG, 41), bem como nas ocupações e circunstâncias do dia a dia (idem). Além disso, deixou claro que é a caridade quem “rege todos os meios de santificação, dá-lhes forma e os conduz à perfeição” (LG, 42).

 

Não obstante este avanço significativo na compreensão da santidade, a assembleia conciliar lançou apenas as bases, mas era preciso que alguém desse continuidade à reflexão. Os papas que sucederam ao Vaticano II (Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI), assim como os Dicastérios Romanos, dedicaram-se a aprofundar diversos temas tratados durante o Concílio e abordados nos seus dezesseis documentos. Só para citar alguns: liturgia, laicato, vida consagrada, ecumenismo, evangelização, diálogo inter-religioso, ministério dos bispos, Sagrada Escritura e tantos outros. Para muitos desses temas foram convocados Sínodos especiais dando origem, posteriormente, às conhecidas Exortações Apostólicas Pós Sinodais.

 

O certo é que, durante mais de cinquenta anos a santidade permaneceu quase que um assunto esquecido pelo ensinamento oficial da Igreja. É verdade que em diversas ocasiões muitos dos Pontífices dedicaram catequeses ou homilias sobre o tema, além de abordá-lo suscintamente em alguns documentos. Mas havia tempo que a santidade parecia reclamar um lugar de honra dentro do Magistério Pontifício. Ademais, as profundas mudanças ocorridas neste entretempo trouxeram, ao que parece, grandes interrogações sobre o modo de se vivê-la no contexto hodierno.

 

Somente agora, com a Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (Alegrai-vos e exultai) é que o papa Francisco rompe com um silêncio de mais de cinco décadas. Com o subtítulo “sobre a chamada à santidade no mundo atual”, o recente documento de pouco mais de cem páginas tem o privilégio de tirar a santidade de debaixo do alqueire e colocá-la novamente sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos (cf. Mt 5,15).

 

Com o seu habitual estilo literário simples, claro e concreto, Francisco explora o tema de uma maneira cativante, abstendo-se de enveredar por raciocínios teológicos  difíceis e inacessíveis ao cristão comum.[2] Não intenciono proceder aqui a uma análise completa do texto, mas convém destacar alguns aspectos do mesmo.

 

O papa inicia a Gaudete et Exsultate deixando claro o seu objetivo:

 

Não se deve esperar aqui um tratado sobre a santidade, com muitas definições e distinções que poderiam enriquecer este tema importante ou com análises que se poderiam fazer acerca dos meios de santificação. O meu objetivo é humilde: fazer ressoar mais uma vez a chamada à santidade […] (n. 2).

 

Em seguida, no número 3 da Exortação, evocando algumas figuras bíblicas que são testemunhas da santidade, Francisco faz uma colocação surpreendente:

 

E, entre tais testemunhas, podem estar a nossa própria mãe, uma avó ou outras pessoas próximas de nós (cf. 2 Tm 1, 5). A sua vida talvez não tenha sido sempre perfeita, mas, mesmo no meio de imperfeições e quedas, continuaram a caminhar e agradaram ao Senhor.

 

 

Trata-se, de fato, de uma compreensão completamente nova. Sem deixar de olhar para a história da salvação e para os inúmeros santos da Igreja, o papa convida-nos a enxergar as testemunhas de santidade “dentro de casa”, por assim dizer. Supostamente, essa contemplação pode ser um meio de se enxergar a santidade como uma realidade possível de ser alcançada.

 

Como que a enfatizar esse mesmo pensamento, o documento acrescenta: “Não pensemos apenas em quantos já estão beatificados ou canonizados. O Espírito Santo derrama a santidade, por toda a parte, no santo povo fiel de Deus […] (n. 6)”. Em seguida, enumera algumas situações do cotidiano onde há vestígios de uma vida santa:

 

Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade “ao pé da porta”, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus (n. 7).

 

Não poderia ser diferente, o Pontífice, no número 10, evoca algumas palavras do documento conciliar citado anteriormente:

 

 

O Concílio Vaticano II salientou vigorosamente: “munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho” (LG, n. 11).

 

 

E prossegue, mostrando que há um meio próprio de santificação para cada pessoa:

 

“Cada um por seu caminho”, diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós (n. 11).

 

Um pouco mais adiante, Francisco toca no principal ponto do debate conciliar sobre o chamado à santidade:

 

Para ser santo, não é necessário ser bispo, sacerdote, religiosa ou religioso. Muitas vezes somos tentados a pensar que a santidade esteja reservada apenas àqueles que têm possibilidade de se afastar das ocupações comuns, para dedicar muito tempo à oração. Não é assim. Todos somos chamados a ser santos, vivendo com amor e oferecendo o próprio testemunho nas ocupações de cada dia, onde cada um se encontra. És uma consagrada ou um consagrado? Sê santo, vivendo com alegria a tua doação. Estás casado? Sê santo, amando e cuidando do teu marido ou da tua esposa, como Cristo fez com a Igreja. És um trabalhador? Sê santo, cumprindo com honestidade e competência o teu trabalho ao serviço dos irmãos. És progenitor, avó ou avô? Sê santo, ensinando com paciência as crianças a seguirem Jesus. Estás investido em autoridade? Sê santo, lutando pelo bem comum e renunciando aos teus interesses pessoais (n. 14).

 

 

E com um certo espírito teresiano, põe em destaque a importância dos “pequenos gestos”:

 

 

Esta santidade, a que o Senhor te chama, irá crescendo com pequenos gestos. Por exemplo, uma senhora vai ao mercado fazer as compras, encontra uma vizinha, começam a falar e…surgem as críticas. Mas esta mulher diz para consigo: “Não! Não falarei mal de ninguém”. Isto é um passo rumo à santidade. Depois, em casa, o seu filho reclama a atenção dela para falar das suas fantasias e ela, embora cansada, senta-se ao seu lado e escuta com paciência e carinho. Trata-se doutra oferta que santifica. Ou então atravessa um momento de angústia, mas lembra-se do amor da Virgem Maria, pega no terço e reza com fé. Este é outro caminho de santidade. Noutra ocasião, segue pela estrada fora, encontra um pobre e detém-se a conversar carinhosamente com ele. É mais um passo (n. 16).

 

 

Indubitavelmente, a recente Exortação do papa recupera aquele novo frescor da santidade que o Concílio Vaticano II trouxe para a Igreja. E não somente isso. Ela também amplia os horizontes de compreensão e, por conseguinte, da práxis santificante, demonstrando que a perfeição cristã é, de fato, possível a toda pessoa.

 

A Gaudete et Exsultate entrará para a história como mais uma ponte que uniu o Concílio ao cristão do século XXI. Eis, portanto, um grande motivo de “alegria e exultação” para todos nós.

 

 

[1] Disponível em: <https://padrepauloricardo.org/episodios/50-anos-do-concilio-vaticano-ii-vocacao-universal-a-santidade>. Acesso em: 30 de maio de 2018.

[2] Mesmo sua explanação, no segundo capítulo, sobre as novas formas de gnosticismo e pelagianismo (temas relativamente complexos), é feita de modo bastante compreensível.

 

 

 

Francivaldo da Silva Sousa (Vavá Silva)

Consagrado de vida na Comunidade Remidos no Senhor

 

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