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  Homília Dominical
 

O rigor da lei e o vigor da misericórdia

(21 de Março de 2010)

Antes de entrar na grande semana de nossa Redenção, o quinto Domingo de Quaresma nos oferece mais uma expressão desse Deus paciente, misericordioso e que não quer a morte do pecador mais que se converta e viva e por isso perdoa, na passagem da mulher adúltera (João 8, 1-11).

Era manhã, bem cedo Jesus já estava no templo de Jerusalém para ensinar, no entanto, sua presença ali irrita os fariseus e escribas. É em meio à serenidade do ensinamento de Jesus que irrompe a violência dos mestres da lei; que aos empurrões trouxeram-lhe uma mulher pega em adultério: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. Na Lei Moisés nos ordena apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?” (Jo 8,4-5)

O livro do Levítico diz que: “o homem que cometer adultério com a mulher do seu próximo deverá morrer, tanto ele como a sua cúmplice.” (Lv 20,10); e o Deuteronômio, por sua parte, exige: “os trareis ambos à porta da cidade e os apedrejareis até que morram... deste modo extirparás o mal do teu meio.” (Dt 22,24) Estas eram as penas estabelecidas pela Lei de Moisés.

“No Antigo Testamento a mulher era considerada uma propriedade do marido, a mais íntima e peculiar. Por isso o adultério mais do que um pecado de luxúria era um pecado contra a propriedade. Considerava-se adultério a comunicação sexual com a esposa ou prometida de outro homem. O sexto Mandamento: Não adulterarás; exige pureza sexual (Ex 20, 14) e apresenta o adultério como um crime repugnante contra Deus. É a ruptura de um contrato feito diante de Deus que constitui uma desonra a Deus, pois coloca a vontade do homem acima da de Deus pois os dois se tornam uma só carne (Gn 2, 24). Em Pr 2, 17 o casamento é uma aliança perante Deus e o adultério é o pior tipo de roubo, pois é o roubo da própria carne, semelhante ao homem que se levanta contra o seu próximo e lhe tira a vida (Dt 22, 26). Por isso era passível de morte.” (McKenzie, 1984.)

Claro que Deus não exigiu isso, mas, a cultura da época impôs estes castigos como exigências morais. Jesus não pode estar de acordo com isso: nem com as leis de lapidação e morte, nem com a infâmia de que somente o ser mais frágil tenha que pagar publicamente. A leitura “profética” que Jesus faz da lei põe em evidência uma religião e uma moral sem coração sem entranhas. Não mandou Jesus buscar o “companheiro” para que juntos pagassem. O que indigna a Jesus é a “dureza” de coração dos fortes camuflada no puritanismo de aplicar uma lei tão injusta como inumana.

No centro da cena vemos uma mulher indefesa, ameaçada, talvez agredida, enfrentando a desonra. Talvez ela não esteja arrependida, mas devia estar perturbada, assustada e profundamente envergonhada. Uma mulher é deixada só, exposta diante da opinião pública com “o seu pecado”, jogada nos pés de Jesus.

Os evangelhos ressaltam o respeito e a valorização da mulher. “É conhecido como a cultura era profundamente machista e discriminava a mulher de modos diversos... antes do matrimônio era propriedade do pai, depois, do marido. O divórcio era admitido de parte do marido, mas não ao contrário; a mulher reconhecida adúltera podia ser repudiada e até mesmo lapidada; não assim para o marido culpável pelo mesmo ato etc. No caso da mulher pega em flagrante adultério. Jesus demonstra uma compreensão ilimitada. Antes de tudo coloca os homens-acusadores defronte à sua responsabilidade, demonstrando conhecer bem quanto se esconde nos seus corações. ‘Quem de vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra’ (Jo 8, 7); e depois encoraja a mulher, aconselhando-a a não cair novamente na culpa cometida: ‘Ninguém te condenou?... Também eu não te condeno; vai e doravante não peques mais.’ (Jo 8, 10-11) Jesus ‘sabe o que há no homem’ (Jo 2,25). Sabe que se a mulher cometeu adultério, com ela esteve um homem que é igualmente culpado, se não mais; por isso ambos devem converter-se.” (Rocchetta, 2002.)

Nem precisa Jesus perguntar onde está seu companheiro de pecado? Onde está seu marido? Talvez entre os seus acusadores? Somente os fracos, neste caso a mulher, para os que fazem as leis e as manipulam são os culpados? “Parece que Jesus diz aos acusadores: esta mulher com todo seu pecado não é talvez também, e principalmente, uma confirmação de vossas transgressões, da vossa injustiça masculina, de vossos abusos?” (João Paulo II. Mulieres dignitatem n. 14)

Para Deus e para Jesus a questão não se trata aqui de buscar culpados, mas de refazer ou restaurar a vida, de encontrar saída a partir da libertação e da graça. Os poderosos deste mundo, em vez de curar e salvar, se ocupam de condenar e castigar. Porém, o Deus de Jesus sente um verdadeiro prazer quando pode exercer a sua ternura e misericórdia. Porque a justiça de Deus é distinta da lei, se realiza superando a lei, na misericórdia e no amor consumado. É aí onde Deus se sente justo com seus filhos e filhas. Dizia um autor Francês não cristão: A justiça considera uma pessoa pelo seu passado, ao passo que o amor a considera pelo seu futuro. E manifesta sua admiração por esta atitude entre os cristãos.

Pressentimos que no íntimo de Jesus ele sente nesse momento, sem dizê-lo, como ele tem que aplicar a vontade divina e como isso lhe dá prazer, revelar em seus gestos e palavras a face do seu Deus. Nesta mulher está representada toda a humanidade e cada pessoa humana.

Jesus escuta atento as acusações daqueles que haviam encontrado a mulher perdendo sua dignidade com um qualquer e o que se lhe ocorre é precisamente devolvê-la para sempre. Isso é o que faz Deus constantemente. De nada valia àquela mulher ele lhe falar de um Deus libertador, se os escribas, os responsáveis pela lei, lha abandonaram e a deixaram só à mercê de sua sorte. Jesus, pois, é o melhor intérprete do Deus Libertador que tem compaixão e escuta os clamores e penas dos que sofrem todo o peso de uma sociedade e uma religião sem misericórdia. “Quem dentre vós estiver sem pecado, seja o primeiro a lhe atirar uma pedra!” (Jo 8, 7) Quer dizer, se todos somos pecadores, por que não somos mais humanos ao julgar os outros? “Embora todos sejamos imperfeitos, acusando os outros como fiscais, julgamo-nos inocentes. Parece-nos a coisa mais natural do mundo deitar a culpa para os outros. Por isso diz o ditado ‘a culpa morreu solteira’, porque ninguém a quer. Procura-se, arranja-se sempre um bode expiatório, tanto a nível político e social, religioso e até a nível técnico. Todos os que podem passam a bola a outro: os de cima aos de baixo e vice-versa. Hipócritas! Julgamos assim que nos auto-justificamos. Aqueles fariseus do evangelho não eram muito piores do que nós, que percebemos nitidamente o cisco no olho do outro e não vemos a trave no nosso. Contudo, constituirmo-nos como juízes dos outros é um contra-senso clamoroso. Isso é competência exclusiva de Deus, o único que conhece integralmente a pessoa com os seus condicionamentos psicológicos e as suas limitações à liberdade, e por conseguinte, a responsabilidade e culpabilidade de cada um.” (Caballero, 2000.)

Não é uma questão de que há pecados e pecados. Isto é verdade. Mas, por mais simples que seja nosso pecado todos queremos perdão e misericórdia. Os grandes pecados também pedem misericórdia, e nenhum pecado ante Deus  exige a morte. Portanto, deveríamos fazer uma leitura humana e teológica. Toda religião que exige a pena de morte ante os pecados deixa de ser verdadeira religião porque Deus não quer a morte do pecador. Isto deveria já ser uma conquista integral da humanidade.

Estamos no final da Quaresma, percorrendo o trecho final deste itinerário de conversão em direção à Páscoa, aproveitemos a última oportunidade de conversão e façamos a experiência do encontro com o amor, a ternura, o perdão e a misericórdia de Deus no Sacramento da Reconciliação, da Penitência ou da Confissão. Ao olharmos para a nossa realidade talvez, “nenhum sacramento foi tão negligenciado nas últimas décadas pelas pessoas quanto o da penitência. Enquanto nos anos 1950 ainda era costume dos cristãos devotos se confessarem a cada quatro semanas ou, pelo menos, no Natal, na Páscoa ou em Finados, atualmente muitos abandonaram esse sacramento. Quase não vemos mais filas diante dos confessionários, talvez apenas em conventos, em locais de peregrinação e na véspera de determinados dias santos. Isso certamente se deve a um certo exagero na quantidade de confissões em tempos passados; mas, entre outros motivos, também à falta de uma teologia e de uma prática desse sacramento. Não tem sentido lamentarmos a diminuição da grande quantidade que havia nos anos 1950. Na verdade, isso não acontecia necessariamente por causa de Jesus, mas muito mais por causa da Igreja. Era um sinal de que a Igreja tinha muito poder sobre as almas. Essas confissões, porém, eram obtidas também por meio do medo e de muitas coações... A confissão como reconhecimento dos pecados não é uma invenção do cristianismo. Em quase todas as religiões é habitual que as pessoas, depois de sobrecarregar sua relação com Deus por meio dos pecados, normalizem essa relação com um reconhecimento das próprias faltas. Muitas religiões adotam a confissão”. (Grün, 2006.)  

“Nem eu te condeno. Vai e de agora em diante não peques mais.” (Jo 8,11) O gesto de Jesus passando por cima do pecado daquela mulher adúltera aconteceu com todos os cristãos no Batismo, e se renova no Sacramento da Reconciliação, tantas vezes quando dele obtemos o perdão dos pecados. “A confissão é, portanto, o encontro com o perdão divino, que nos é oferecido em Jesus e que nos é transmitido mediante o ministério da Igreja. Neste sinal eficaz da graça, encontro com a misericórdia sem fim, é-nos oferecido o rosto de um Deus que conhece como ninguém nossa condição humana e se faz próximo com terno amor... Desta proximidade terna e compassiva de Deus temos imensa necessidade, como demonstra também um simples olhar para nossa existência: cada um de nós convive com a própria fraqueza, atravessa a enfermidade, assoma à morte, adverte o desafio das perguntas que tudo isto cria no coração. Por muito que logo possamos desejar fazer o bem, a fragilidade que nos caracteriza a todos nos expõe continuamente ao risco de cair na tentação... O sacramento do perdão vem a nos socorrer sempre de novo em nossa condição de pecado, alcançando-nos com a força curadora da graça divina e transformando nosso coração e nossos comportamentos. Por isso, a Igreja não se cansa de nos propor a graça deste sacramento durante todo o caminho de nossa vida: através dela, Jesus, verdadeiro médico celestial, toma nossos pecados e nos acompanha, continuando sua obra de cura e de salvação.” (Forte,  2005-2006.)

 

 

Bibliografia:

Rocchetta, Carlo. Teologia da ternura, um evangelho a descobrir. São Paulo: Paulus, 2002.

McKenzie, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 1984.

Caballero, B. A Palavra de cada Domingo, Ano C. Apelação ( Portugal): Paulus , 2000.

Grün, Anselm. Penitência celebração da reconciliação. São Paulo: Loyola, 2006.

Forte, D. Bruno. Carta pastoral Confessar-se, por quê? Artigo traduzido e publicado por Zenit.org 2005-2006.
 
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